História da Quiropraxia
Um hábito que desenvolvi em meus tempos de professor universitário era o de inserir o tema que estava abordando num contexto histórico. O mais antigo registro de uma manipulação da coluna vertebral foi descoberto em pinturas pré-históricas em uma caverna em Point le Merd, na França, datadas de 17.500 a.C. Há também registros de que os antigos chineses já usavam a manipulação vertebral como terapia por volta de 2.700 a.C. Em 1500 a.C., os gregos relataram seu sucesso no tratamento de dores lombares. Na metade do século V a.C., Hipócrates escreveu um livro chamado “Manipulação e sua Importância para uma Boa Saúde” e outro trabalho chamado “A Importância do Ajuste Articular”. Ele escreveu: “Conheça a coluna, ela é a causa de muitas doenças”. Outro famoso médico, o romano Claudius Galen (Galeno), escreveu no início do século II: “Olhe para o sistema nervoso como a chave da máxima saúde”. Galeno ficou famoso por tratar uma criança chamada Eudemus. Ele manipulou o pescoço de Eudemus, e aparentemente curou sua paralisia do braço. Ciganas da Europa e os índios americanos utilizavam o back walking ou “caminhar pelas costas”. Os astecas e os incas usavam também a manipulação vertebral. Em 1867, Dr. James Paget publicou um artigo no British Medical Journal intitulado “Casos em que o Ajuste Articular pode Curar”.
Durante a Idade Média, essas tradições foram preservadas pelo mundo árabe, e mais tarde, esse conhecimento retornou à Europa, e os trabalhos de Hipócrates e Galeno formaram a base do Renascimento da medicina. O próprio Ambroise Parè, também chamado de o Pai da Cirurgia, usava manipulação vertebral para tratar dos vinicultores franceses em pleno século XVI.
Com o passar dos anos, essas técnicas manipulativas foram transmitidas de geração a geração, de pai para filho, de mãe para filha... e esses métodos de “ajustar ossos” tiveram importante papel na história das terapias não médicas.
A OSTEOPATIA
Na metade do século XIX, os Estados Unidos foram cruciais para o desenvolvimento das terapias não convencionais. Duas das principais artes de cura baseadas na manipulação vertebral nascem nesta época, no meio-oeste americano. A quiropraxia, criada por Daniel David Palmer, e a osteopatia, criada por Andrew Taylor Still.
Ambos, Still e Palmer formularam suas hipóteses e construíram suas novas profissões contra a ortodoxia médica, que eles consideravam frequentemente ineficaz, e algumas vezes bárbara. Still, um médico do Missouri que lutou na Guerra Civil americana, tinha perdido três de seus filhos por meningite, cujo tratamento padrão era a cauterização (queima da pele com ferro quente), seguido da aplicação de sanguessugas no tecido vertebral exposto. Horrorizado com o sofrimento do tratamento, depois da morte das crianças, Still passou o resto de sua vida buscando uma forma de curar que não utilizasse remédios ou outras técnicas invasivas.
Em seus estudos, Still, que era cirurgião-ortopédico, percebeu que a manipulação articular produzia benefícios que iam além dos problemas que se estava buscando resolver. Em 22 de junho de 1874, Still anuncia um sistema de tratamento médico baseado na manipulação das “articulações”, a qual chamou de “osteopatia”.
Still dizia que um corpo depende de sua circulação, assim com a terra depende de sua irrigação. Um simples desarranjo de uma de suas peças (músculos, tendões) provocaria um efeito nas vias vasculares, impedindo o livre fluxo dos “medicamentos internos” do organismo.
A QUIROPRAXIA
O fundador da moderna quiropraxia foi Daniel David Palmer. Palmer nasceu em Port Perry, Ontário, Canadá, em 7 de março de 1845. Quando tinha 11 anos, a pequena mercearia de seu pai faliu, deixando sua família com poucas opções, a não ser recomeçar a vida, e partiram para os Estados Unidos. Daniel e seu irmão mais novo não seguiram com a família inicialmente, e ficaram estudando e trabalhando na fábrica de seu tio, mas logo se viram obrigados a abandonar os estudos. Somente em 1865, Palmer e seu irmão seguiram para Iowa, para reencontrar sua família. D.D. Palmer trabalhou em várias atividades: plantou morangos, teve uma pequena mercearia, montou uma escola em sua residência, até atuar como pastor, coordenando grupos de oração em sua própria casa.
D.D. Palmer foi um autodidata – como muitos na virada do século – e possuía uma insaciável sede de conhecimento, além de ser profundamente religioso. Sua estante de livros testemunhava sua infinita curiosidade: dezenas de livros, desde a filosofia do vitalismo até a ciência pragmática. Seus estudos incluíam naturopatia, alopatia, fitoterapia, homeopatia e osteopatia. Mais tarde, D.D. Palmer se sentiu atraído pelo trabalho dos terapeutas magnéticos e passou a praticar essa técnica. Na teoria da magnetoterapia, um campo magnético permeia o corpo, e Palmer acreditava que algumas doenças poderiam ser curadas por influência de um terapeuta que soubesse como utilizar essa força magnética. Desde o princípio, D.D. Palmer fazia parte de um grupo de pessoas que buscavam uma medicina livre de medicamentos. Palmer começou a praticar em Burlington, Iowa por volta de 1886, e um ano depois já estava em Davenport, onde começa a trabalhar numa clínica, no Edifício Ryan. Em 1887, o Davenport City Directory trazia a seguinte propaganda:
D.D. Palmer
Cures without Medicine (Cura sem Medicamento)
Ryan Block Building
Publisher of the Educator (Editor do “O Educador”)
Foi nesse local que ele fez a descoberta que desembocou na quiropraxia.
O primeiro registro de um ajuste quiroprático foi feito em 18 de setembro de 1895, data em que hoje é comemorado o aniversário da quiropraxia. Nessa época, Palmer tentava entender a causa e efeito das doenças. A história conta que seu paciente, Harvey Lillard, era um dos faxineiros do edifício. Lillard referia que, há 17 anos, ao fazer um esforço ouviu um estalido em suas costas e, a partir daí, passou a apresentar uma deficiência auditiva. Palmer examinou sua coluna para ver se descobria algo, observou uma saliência em suas costas e, instintivamente, empurrou firmemente a vértebra. Palmer descreve que Lillard ficou excitado ao ouvir os sons dos cavalos e do falatório que vinha das ruas. Palmer propôs a Lillard continuar com as sessões, depois de um tempo, muito da sua audição estava restaurada.
Quando publicou seu primeiro livro, alguns anos depois, Palmer escreveu: “O exame mostrou uma vértebra fora de sua posição normal. Eu raciocinei que, se esta vértebra fosse reposicionada, a audição deveria ser restaurada... Eu restaurei a posição da vértebra usando o processo espinhal como alavanca, e rapidamente o homem passou a ouvir como antes...”. Bem, este relato cuidadoso pode indicar que a realidade deve ter sido um pouco diferente. Imagino que Palmer estava intrigado com o caso de Lillard, e já tinha tentado tratá-lo com seus toques de terapeuta magnético sem que houvesse qualquer melhora. Alguns textos recolhidos posteriormente dão conta que Palmer já tinha percebido uma saliência nas costas de Lillard e o exame da região dava a impressão de que “a vértebra estava fora de lugar”. Ele tentou várias vezes empurrar a vértebra, mas sem sucesso, até que um dia ele ouviu um ligeiro click e lhe pareceu que a vértebra “finalmente se encaixou”. A partir daí, a audição de Lillard começou a melhorar progressivamente.
Outro fato curioso referente a este episódio foi contado, anos depois, pela filha de Harvey Lillard: D.D. Palmer estava em sua sala estudando quando ouviu Lillard e outro paciente contando piadas na sala ao lado. Palmer, sem que eles percebessem, se aproximou para ouvir melhor e, no final da história, soltou uma gargalhada e bateu com o livro que estava em suas mãos nas costas de Lillard. Mais tarde, Lillard contou a D.D. Palmer que ele tinha passado a ouvir melhor depois do episódio.
Mesmo que hoje saibamos que a audição não depende diretamente de nenhum nervo vertebral, a importância desta manipulação foi o entendimento de suas implicações globais. D.D. Palmer passou a se dedicar ao estudo do que tinha ocorrido, e ao final de alguns meses, uma nova maneira de cuidar da saúde estava criada.
Em seu livro, D.D.Palmer descreve o seu segundo ajuste, e foi ainda mais enfático: “Logo depois da cura da surdez, eu tive um caso de ‘problema cardíaco’ que não melhorava. Eu examinei a coluna e encontrei uma vértebra desalinhada que pressionava os nervos que inervavam o coração. Eu ajustei a vértebra e obtive alivio imediato; e não havia nada de ‘acidental’ ou ‘grosseiro’ nisto. Então, eu comecei a raciocinar que se duas doenças tão diferentes, como a surdez e um problema cardíaco, se curaram com o realinhamento da vértebra, porque outras doenças não poderiam ter causa semelhante?”.
É bem verdade que esse dramático início causou muito excitamento, e Palmer chegou realmente a pensar que tinha descoberto a cura da surdez e de várias doenças. Vários deficientes auditivos procuraram Palmer para serem “curados”, mas não houve registro de outro sucesso. Mas, outras histórias “milagrosas” tornaram-se comuns, e as controvérsias que cercam a quiropraxia também. É razoável supor que muitos quiropraxistas e seus pacientes assumissem que suas graves doenças tinham sido “curadas”, mas, em muitos casos, o problema tinha sido um erro no diagnóstico inicial. O médico formulava o diagnóstico de que o paciente tinha um problema cardíaco, quando, na verdade, a dor no peito era resultado de uma dor intercostal, não um problema realmente do coração, por exemplo.
De qualquer maneira, Palmer se aprofundou nos estudos sobre os mistérios da saúde, e passou a trabalhar secretamente. Seus experimentos eram realizados em sua sala às escuras e a portas fechadas. Observar suas palpações e ajustes era impossível mesmo para quem estivesse dentro da sala. Os escritos deixados por ele indicam que ele buscava a causa das doenças. D.D. Palmer percebeu desde o princípio a importância de sua descoberta, e logo passou a buscar um nome para sua nova ciência. Com a ajuda do paciente e amigo, um veterano da Guerra Civil, Samuel Weed, uma palavra foi cunhada. A data de nascimento dessa nova palavra, chiropractic, foi 14 de janeiro de 1896. O reverendo Weed que tinha estudado hebraico e grego sugeriu três ou quatro nomes. Palmer olhou para eles e decidiu usar chiropractic, derivado da palavra grega para “mãos” (cheiros) e “feito por” (praktos), juntadas para criar “Chiropractic”, que significa “feito pelas mãos”.
Palmer passou os anos seguintes desenvolvendo suas teorias, até que concluiu a premissa básica da quiropraxia: a causa das doenças é a subluxação vertebral, e o ajuste articular específico, a cura. Nos primeiros anos da profissão, essa filosofia – uma causa, uma cura – foi o que norteou os pioneiros, embora uns poucos quiropraxistas atuais ainda acreditem nessa formulação simplista. Mas, também é verdade que o que distingue ainda hoje a profissão é a detecção e correção da subluxação vertebral. Na verdade, os quiropraxistas fazem muito mais, mas é esta a única coisa que permitiu que a quiropraxia atravessasse esse século e sobrevivesse até os dias de hoje.
O INÍCIO DA EDUCAÇÃO EM QUIROPRAXIA
D.D. Palmer era bastante reservado sobre sua descoberta, pois temia que outros pudessem copiá-la tornando-se competidores. Pesadas cortinas cobriam as janelas para impedir que outras pessoas observassem suas palpações e manipulações. Talvez ele tivesse tentado manter sua arte em segredo para as próximas gerações da sua família. Uma das histórias sobre essa época foi contada por seu neto, David Daniel Palmer:
“No seu consultório D.D. mantinha um espelho voltado para o rosto do paciente, assim, ele podia ver a expressão facial durante os ajustes. O espelho era ligeiramente desviado para o lado, de modo que o paciente não pudesse ver como a manobra estava sendo realizada. Se fosse necessário para o paciente ficar em frente ao espelho, D.D. se colocava entre o paciente e o espelho. Um dia, D.D. esqueceu-se de sua costumeira precaução. Ele notou o paciente que o estudava cuidadosamente. D.D. jogou o espelho contra a parede e o quebrou em pedaços. Depois disso nenhum espelho foi permitido em seu consultório. Mas, depois desse incidente, D.D. repensou sua postura e, em 1897 estava determinado a ensinar sua arte”.
Com esse objetivo, D.D. abriu a Palmer School and Infirmary of Chiropractic, em 1897 e começou a ensinar exclusivamente a quiropraxia; e em janeiro de 1898, William A. Seeley se torna seu primeiro estudante. Em 6 de janeiro de 1902, quatro estudantes se graduaram como doutores em quiropraxia (Doctors of Chiropractic). Dentre eles, o filho de D.D. Palmer, Bartlett Joshua Palmer, nascido em 1881, e sua esposa Mabel. B.J. trabalhou junto com seu pai no Ryan Building, e já em abril daquele ano, foi indiciado por praticar medicina sem licença. Aumentam as pressões sobre a quiropraxia. Em 1906, o próprio D.D. Palmer vai a julgamento e é condenado a pagar $350 de fiança. O Illinois Medical Journal chegou a escrever que Palmer era “o mais perigoso homem em Iowa fora da prisão”, além de descrevê-lo como um “insano... paranoico, um homem cuja irresponsabilidade é criminosa”. Nesta época, Palmer publica “Um Governo Invisível”, no qual acusa a medicina de tentar monopolizar a assistência à saúde.
As preocupações de D.D. Palmer se provaram proféticas, pois vários dos primeiros graduados fundaram suas próprias escolas, além de começarem a praticar “novas técnicas”. A quiropraxia começa a se dividir e os ataques a D.D. Palmer se tornam frequentes, dentro e fora da profissão. Quase todos os graduados em quiropraxia são indiciados, o que estimula B.J. a fundar a UCA (Universal Chiropractic Association) para defender a profissão. O quadro só muda em 1907, em Wisconsin, quando um dos estudantes da Palmer College, descendente de japoneses, dr. Shegataro Morikubo, foi preso por “exercício sem licença de medicina, cirurgia e osteopatia” e pelo uso da palavra “doutor”. O advogado contratado para defendê-lo foi o então Senador Tom Morris, conhecido por sua luta por causas humanitárias, inclusive a do direito de voto às mulheres. Morris ficou indignado ao ver tantos quiropraxistas serem presos e impedidos de trabalhar, e procurou B.J.
No caso de Morikubo, Morris usou primeiramente a estratégia de provar que ele não prescrevia medicamentos e nem realizava cirurgias, somente utilizando as mãos para tratar os doentes, não podendo assim ser acusado de exercício ilegal da medicina. Segundo a tese de Morris, Morikubo só poderia ser acusado de prática ilegal de osteopatia. Quando o juiz concordou com sua tese, sem perceber ele criou uma importante jurisprudência: arte médica não significa medicina.
A partir daí Morris passou a demonstrar que havia distinção entre as duas formas de “ajustes articulares”. Para a osteopatia da época, a base fisiológica estava no papel preponderante da circulação sanguínea. Já para a quiropraxia esse papel era exercido pelos nervos. Durante sua defesa, ele chamou o osteopata e também quiropraxista Charles Linning. Após dois dias de testemunhos, o júri ficou apenas 25 minutos deliberando para retornar com o veredicto de “inocente”.
Essa decisão foi histórica: o dr. Morikubo não estava praticando medicina ou osteopatia, mas sim uma distinta forma de promoção da saúde, quiropraxia. Em 1913, o Kansas torna-se o primeiro estado a licenciar quiropraxistas. Em 1927, a quiropraxia já está licenciada em 39 estados americanos. O interessante aspecto sobre o argumento da defesa de Morikubo é que ela foi baseada na filosofia desenvolvida por D.D. Palmer. Logo, os outros quiropraxistas, inclusive seus detratores descobrem que para praticar sua profissão sem riscos deveriam seguir a linha criada por Palmer. A partir daí, Palmer nunca mais abandonou a expressão: “Filosofia, Ciência e Arte da Quiropraxia”.
Esse episódio marcou o início de um longo relacionamento entre Morris e a quiropraxia, que perdurou até sua morte em 1928. Durante estes ano, Morris estabeleceu as bases legais da profissão, enquanto B.J. lutava pelo seu reconhecimento científico. Ambos fundaram a primeira associação de quiropraxia, e cada profissional pagava 5 dólares para ter assessoria legal. Mas a intransigência de B.J. para com aqueles que não concordavam com suas ideias – os quais ele chamava de “impuros” – culminou na fundação da ACA (American Chiropractic Association), em 1922.
O gênio difícil de ambos, pai e filho, traduzia-se numa relação tumultuada. O clima entre B.J. Palmer e D.D. Palmer nunca foi bom. D.D. chegou inclusive a abandonar Davenport por uma época e deixou o jovem e inexperiente B.J. sozinho na administração da Palmer School. Mas, foi o envolvimento de B.J. Palmer que salvou a escola, tanto financeiramente, quanto sua reputação. B.J. Palmer construiu uma instituição proeminente, e contribuiu decisivamente para a aceitação da quiropraxia pelo público e pelos legisladores. A quiropraxia cresceria em popularidade nos próximos cinquenta anos, graças ao estilo incansável de B.J. Palmer.
Dentre outros feitos, foi proprietário de várias estações de rádio. Sua primeira estação foi a WOC (Wonders of Chiropractic) e, depois, comprou a WHO (With Hands Only) em Des Moines em 1928. Eram comuns os concursos com modelos que eram avaliadas por sua postura perfeita. Mas, a rainha só era coroada depois de ter sua coluna vertebral checada através de uma radiografia. A Palmer School foi a primeira escola americana a contar com um equipamento próprio de raios X. Inúmeros folhetos explicando o que era a quiropraxia eram produzidos na própria gráfica da escola.
D.D. Palmer morreu em 20 de outubro de 1913, em sua casa em Los Angeles, devido a complicações decorrentes de febre tifoide. Mas, até a morte de Palmer gerou controvérsia. B.J. foi indiciado por “ter atropelado o pai, e contribuído para sua morte”. Essa polêmica ocorreu quando ambos participavam de uma parada em homenagem a D.D. Palmer, mas testemunhas disseram que B. J. – que dirigia o carro enquanto D.D caminhava recebendo as homenagens – nunca chegou a tocá-lo.
Diferentemente do estilo agressivo de seu pai, B.J. Palmer usou a política na promoção da profissão. Lentamente, ele trabalhou “dentro” do sistema. Seus pacientes incluíram presidentes americanos e grandes executivos de todo o mundo. Harry Houdini, Herbert Hoover, Jack Dempsey, Harry Truman e Ronald Reagan foram alguns dos convidados a sua casa. B.J. Palmer morreu em 1961, não antes de ver a quiropraxia se transformar no maior sistema de cuidado de saúde não medicamentoso dos EUA.
A Palmer School, hoje Palmer College of Chiropractic, passou de 15 estudantes em 1901, para 3.100 em 1923. Hoje, a quiropraxia está estabelecida em todo o mundo, e neste momento, mais de 30.000 estudantes estão nas salas de aula. Se não fosse o esforço do Dr. B.J. Palmer, a quiropraxia, como profissão, não teria sobrevivido aos ataques da comunidade médica norte-americana.
O DESENVOLVIMENTO DA PROFISSÃO
Depois da metade dos anos 20, a quiropraxia sentiu as mesmas dificuldades apresentadas por toda a sociedade americana, principalmente depois da Grande Depressão que culminou na quebra da Bolsa de Valores. Os pacientes escassearam, o número de estudantes diminuiu e várias escolas foram fechadas.
Mas a quiropraxia conseguiu se superar, para o que dois fatos contribuíram majoritariamente: o primeiro foi o fortalecimento dos defensores de alterações nos critérios de ensino da quiropraxia. Essa tese evoluiu até que, em 1941, o dr. John Nugent, diretor de educação da Associação Nacional de Quiropraxia, estabeleceu o primeiro critério de regulamentação para as escolas de quiropraxia. Com efeito, a grande aceitação da quiropraxia, ao longo dos anos seguintes, deveu-se à melhor qualidade da educação e ao desenvolvimento de melhor tecnologia diagnóstica. Até hoje, as faculdades de quiropraxia no mundo todo, seguem os padrões recomendados pelo órgão norte-americano responsável pela educação em quiropraxia.
O segundo fato está ligado à Segunda Guerra Mundial. Devido à guerra, os jovens recrutados se viram impedidos de estudar e seguir uma profissão. Ao fim da guerra em 1944, o plano governamental G.I. Bill permitiu aos jovens americanos obterem diversos benefícios, inclusive bolsas para estudar quiropraxia, estratégia que permitiu o desenvolvimento e o crescimento das escolas de quiropraxia nos Estados Unidos.
O dr. David Palmer, filho de B.J. Palmer tornou-se presidente da Palmer College of Chiropractic depois da morte de seu pai, em 1961, e promoveu mudanças na forma de ensino da quiropraxia. Foi ele o responsável pela transformação da faculdade em uma instituição sem fins lucrativos. Dr. Dave morreu em 1978.
Hoje, estima-se que existam quase 100.000 doutores em quiropraxia (D.C. – Doctors of Chiropractic) em todo o mundo. É a terceira maior profissão com nível superior na área do cuidado com a saúde, depois da medicina e da odontologia. Esses profissionais estão espalhados por 85 países, cujas associações nacionais estão congregadas na Federação Mundial de Quiropraxia (WFC - World Federation of Chiropractic), que tem assento permanente junto à Organização Mundial da Saúde (OMS). Tudo isso faz da quiropraxia a maior, a mais regulamentada e a mais reconhecida profissão do segmento de medicina alternativa e complementar.
A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA
Nos países onde está regulamentada, seja por lei específica ou pela legislação geral, a quiropraxia possui algumas características fundamentais:
• É uma profissão autônoma da área de saúde, não estando ligada a qualquer especialidade médica ou atrelada a qualquer outra profissão.
• Faz parte do atendimento primário de saúde, isto é, tem contato direto com o paciente.
• Tem o direito e o dever de efetuar diagnóstico, incluindo o direito de solicitar radiografias.
No Brasil, até agora, final de 2010, não há qualquer regulamentação sobre a prática da quiropraxia. Os profissionais que atuam no Brasil possuem três origens possíveis:
1. A maior parte estudou em cursos livres, um tipo de especialização, mas sem caráter oficial;
2. Em São Paulo, há o pequeno grupo de Técnicos em Quiropatia, formados pelo SENAC-SP, que não é reconhecido oficialmente.
3. Há o grupo cada vez maior daqueles profissionais que fizeram sua formação no exterior e que agora atuam no Brasil, sendo os únicos com formação reconhecida internacionalmente. São mais 300 profissionais formados desde o ano 2000, e este número cresce a cada semestre. Neste grupo, estão os profissionais melhor preparados e aqueles que exercem a liderança científica e política perante os organismos internacionais.
Neste momento, a Associação Brasileira de Quiropraxia, a Federação Mundial de Quiropraxia e o Conselho de Educação em Quiropraxia estão desenvolvendo o projeto de conversão e nivelamento para que os profissionais sem educação formal possam ser reconhecidos perante a comunidade internacional, para enfim poderem atuar legalmente em nosso país. Além disso, há no Congresso Nacional um projeto de lei em tramitação propondo a regulamentação da profissão no Brasil.
A QUIROPRAXIA NO BRASIL
A quiropraxia foi introduzida no Brasil em 1922, trazida por um pioneiro, o dr. William F. Fipps. O dr. Fipps se estabeleceu no centro de São Paulo onde ficou por 26 anos. Neste período, ele não só atendeu a pacientes, como ensinou sua técnica a alguns brasileiros. Além dele, outros quiropraxistas americanos, de alguma maneira atuaram no Brasil, mas sem registro oficial.
Em 1945, chega ao Brasil o dr. Henry Wilson Young, que assume o consultório do Dr. Fipps e depois se estabelece nos bairros de Higienópolis e Pinheiros, em São Paulo. A partir daí, começa o registro da história da quiropraxia no Brasil. Em 1955, Young atende em seu consultório um estudante de 15 anos de idade que apresentava uma forte dor nas costas. Com simples manipulações, o quiropraxista aliviou as dores do jovem Matheus de Souza, que empolgado, começa a se interessar pela prática, chegando mais tarde a estudá-la a fundo. O dr. Young, homem de personalidade forte, se estabelece como a principal figura da quiropraxia na época. Sob sua liderança, foi estabelecido um convênio com a University of Natural Healing Arts (hoje extinta), localizada em Denver, Colorado e a Associação de Renovação Biológica (ARB), de Curitiba, Paraná. Em 1958, tem início nas dependências da Escola Federal de Medicina, o primeiro curso de quiropraxia em Curitiba, Paraná.
Em 1961, sem aviso prévio ou explicação, a Escola de Medicina retira seu apoio e o curso só se mantém graças à intervenção do sr. Avelino Vieira, fundador do (antigo) Banco Bamerindus, hoje HSBC. Seu apoio financeiro mantém o curso até o final, em 1964. Em dezembro de 1964, o curso se encerra com 28 graduandos. Dentre estes, o dr. Manoel Matheus de Souza (aqui vai uma curiosidade, que comprova o que falei anteriormente sobre o GI Bill: muitos dos professores que vinham dos EUA para ministrar as aulas eram ex-combatentes da II Guerra Mundial). Sem apoio subsequente, o curso não pode continuar e logo em seguida ao golpe militar de 1964, os próprios profissionais passaram a ser perseguidos pelas corporações médicas.
Até essa época, não havia uma denominação oficial da profissão no Brasil, e os profissionais se intitulavam chiropractors, nome original em inglês. Mas apesar dessas dificuldades iniciais, cerca de 300 profissionais, brasileiros e americanos, participaram da realização da primeira Convenção Nacional, em 1965. Nessa convenção, foi escolhido o termo quiropatia para denominar a profissão. Neste mesmo ano, Matheus funda o IBRAQUI – Instituto Brasileiro de Quiropatia, como órgão de divulgação para o Brasil e países de língua portuguesa.
Mas a perseguição aos quiropraxistas aumentava. Em 1967, o dr. Matheus é obrigado a parar de trabalhar em Curitiba, começando assim sua peregrinação por várias cidades onde tentava se estabelecer profissionalmente: Marília/SP, Curitiba/PR e Campo Grande/MT. Em 1969, de volta a Curitiba, é obrigado a parar pela segunda vez, fato que se repete em 1971.
Em 1972 no auge da repressão, a sede do IBRAQUI e da ARB é invadida, e todos os registros e documentações pessoais são destruídos. Os quiropraxistas são presos e o dr. Matheus, junto com outros profissionais fica três dias desaparecido. No cárcere, os quiropraxistas são submetidos à tortura física e psicológica, e ao serem libertados, são aconselhados a abandonarem sua profissão. Alguns ainda tentam manter sua atuação profissional, e o próprio dr. Matheus trabalha clandestinamente durante os sete anos seguintes em várias cidades: Presidente Prudente, Florianópolis, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Segundo seu próprio relato: “Quando eu chegava numa cidade, começava a trabalhar sem problemas, mas em cerca de seis meses eu já estava conhecido. Aí não tinha mais jeito. Quando eu recebia uma intimação para comparecer à delegacia, arrumava minhas malas e saia da cidade.” Obviamente, os consultórios de quiropraxia vão sendo gradativamente desativados e vários profissionais abandonam a profissão ou emigram para a Europa e Estados Unidos.
Neste ponto, posso dar meu testemunho pessoal. Há alguns anos, atendi a um casal que era paciente do dr. Matheus nesta época. Segundo seu relato, eles nunca sabiam aonde seriam atendidos. A Suréia – esposa do Matheus – ligava e dizia: “Agora ele está atendendo no endereço tal”. E lá iam eles. Invariavelmente, era uma casa onde as janelas eram cobertas por grossas cortinas, de modo que ninguém pudesse ver o que acontecia lá dentro.
Em 1980, o dr. Matheus inicia trabalho clínico junto ao dr. Henry Young em seu consultório em São Paulo, sendo os dois únicos profissionais a atuar publicamente no Brasil. Nessa época, o quiropraxista americano LeRoy Otto vem ao Brasil, representando a comunidade internacional e conhece Matheus de Souza. Depois da intervenção do consulado norte-americano a perseguição diminuiu, até o falecimento do dr. Young em fevereiro de 1982. Em seguida, Matheus de Souza assume seu consultório.
Em 1983, recria o IBRAQUI e reinicia o trabalho de divulgação através de seminários e palestras, incluindo aulas de quiropraxia no curso de Pós-Graduação em Homeopatia da Associação Médica Paranaense de Homeopatia, que durou até 1987.
Mesmo com o arrefecimento da repressão, em 8 de agosto de 1985, Matheus é preso pela quinta vez, durante oito dias, e novamente os registros do IBRAQUI são destruídos. A alegação é a mesma, prática ilegal da medicina, mas diferentemente do passado, ele inicia uma importante batalha judicial. Em 1987, a sentença torna Matheus de Souza o primeiro brasileiro a praticar a profissão de quiropraxista apoiado numa decisão judicial. A histórica sentença da Câmara Civil do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo diz num dos trechos:
“Toda atividade nova (no sentido de ser utilizada onde não é conhecida suficientemente), sempre foi objeto das mais acirradas críticas e coações: assim aconteceu em todo ramo da ciência, desde Copérnico até os alquimistas na Inquisição, e agora com os novos métodos de tratamento de doenças...”.
Em 1987, é criada a Editora Ibraqui, que publica o livro “Iniciação à Quiropatia”, de Manoel Matheus de Souza, que seria durante anos a única obra no Brasil a divulgar a ciência, a arte e a filosofia da quiropraxia. Em 1988, Matheus ajuda a formar a Associação Nacional de Quiropatia (ANQ).
Começam a chegar ao Brasil outros quiropraxistas: em 1981, chega a Porto Alegre, o dr. Marino Schuler, graduado no Cleveland College of Chiropractic, e no Rio de Janeiro, o dr. Gerald Klein, graduado na Palmer College of Chiropractic. Logo em seguida, o dr. Klein forma na cidade do Rio de Janeiro a Associação Brasileira de Quiropatia, que tem duração efêmera, desaparecendo após seu retorno aos EUA. Em 1982, Mitsuyoshi Nagaya, graduado na Shiokawa School – Japão chega a São Paulo.
Em 1986, o quiropraxista norte-americano Brent McNabb e Ross Royster vêm à Bahia para demonstrar o trabalho com a quiropraxia. Esta visita – que teve a participação da médica e quiropraxista Sira Borges – estimulou a formação, em 1990, da Associação Internacional dos Amigos da ABQ (ICBCA – International Colleagues of The Brazilian Chiropractic) com o objetivo de apoiar o desenvolvimento da quiropraxia no nosso país.
Em 1990, Sira Borges, retorna ao Brasil e abre sua clínica em Ilhéus, BA. Neste período, chega o Dr. Conrad Spainhower, ambos graduados pela Palmer College of Chiropractic
Em 1992, o termo quiropraxia é utilizado pela primeira vez, quando Matheus, Schuler, junto aos recém-chegados, Sira Borges (Palmer College), Conrad Spainhower (Palmer College) e Mitsuyoshi Nagaya (Shiokawa School – Japão), formam a Associação Brasileira de Quiropraxia (ABQ). Apesar de ser o secretário-geral na ABQ, logo aparecem divergências que afastam o dr. Matheus do restante da ABQ até que em outubro de 1994 pede seu desligamento. Até hoje, a ABQ é a única entidade reconhecida pela Federação Mundial de Quiropraxia, e só aceita como membros profissionais graduados em instituições de ensino reconhecidas pelo Conselho de Educação em Quiropraxia.
Os anos seguintes foram marcados por profunda divergência entre o dr. Matheus e a ABQ. Matheus não concorda com o fechamento dos cursos livres que ele ministrava, já que a ABQ insiste em que a quiropraxia é uma profissão de nível superior, como no restante do mundo. Matheus volta a abrir a Associação Nacional de Quiropraxia (ANQ), congregando seus alunos e os profissionais sem formação universitária. Havia dúvidas, inclusive, sobre a formação do dr. Matheus, se seria reconhecida, ou não, internacionalmente.
Sem querer entrar nesta polêmica, o fato a se destacar é que a quiropraxia só se manteve viva no Brasil durante os anos 70 e 80 graças ao trabalho dedicado de Matheus de Souza. Numa de minhas viagens aos EUA, eu e a quiropraxista Madalena Guerra pesquisamos nos documentos de Denver, Colorado, e confirmamos que a University of Natural Healing Arts, que Matheus alegava ser a instituição responsável pelo curso que ele cursou no Brasil, realmente existiu.
A chegada dos profissionais formados no exterior aumentava a cada dia e a abertura dos cursos universitários isolou Matheus cada vez mais. Politicamente isolado, buscou apoio na fisioterapia, numa tentativa de transformar a quiropraxia que ele ensinava numa espécie de especialização da profissão. Seu sócio à época, ligado à fisioterapia, o estimulou neste caminho. Hoje, há uma batalha jurídica internacional, envolvendo o Conselho Regional de Fisioterapia (CREFITO), a ABQ e a Federação Mundial de Quiropraxia, sobre se a quiropraxia deve ser regulamentada no Brasil como uma profissão distinta ou se deve ser considerada uma especialidade da fisioterapia. Esta batalha é única no mundo.
Outros eventos importantes aconteceram enquanto isso:
Em 1994, o Ministério do Trabalho que inclui a profissão quiropraxia no CBO – Código Brasileiro de Ocupações. Eu participei da sua revisão em 2002 quando foram incluídas todas as denominações correlatas, quiropatia e quiroprática.
Em 1998, tem início um curso de Habilitação Técnica em Quiropatia do SENAC, cuja primeira turma se formou em no final de 1999.
Também em 1998, tem início um curso de pós-graduação, na FEEVALE, em Novo Hamburgo/RS, cuja primeira turma se formou em abril de 2000.
Em janeiro de 2000, acontecem dois vestibulares e abrem-se duas turmas de graduação, na Faculdade Anhembi-Morumbi, em São Paulo, e na FEEVALE, em Novo Hamburgo. Hoje, a ABQ já conta com mais de 300 membros com formação universitária.
Em março de 2000, a quiropraxista Elza A. Castro lança o livro “Quiroprática (Chiropractic) – Um Manual de Ajustes do Esqueleto“.
Em 2001, o secretário-geral da Federação Mundial de Quiropraxia, David Chapman-Smith lança o livro “Quiropraxia – Uma Profissão na Área da Saúde”.
A abertura dos cursos de graduação faz do Brasil rota de passagem de profissionais internacionais, e tem sido frequente a presença de estrangeiros. Livros têm sido publicados sob o patrocínio das Universidades. O Brasil entra definitivamente na era da moderna quiropraxia.
Vou abrir aqui um parêntese especial em homenagem ao dr. Matheus de Souza. Num belo dia, Matheus se preparava para ministrar mais um de seus cursos livres, num hotel no interior de São Paulo, que duraria a semana toda. Ele se deu conta de que seu sócio havia desaparecido, e levou com ele toda a sua contabilidade, inclusive os valores já pagos pelos alunos. Matheus chama e polícia e descobre que, além deste baque financeiro, os impostos e contas não haviam sido pagos ao longo de vários anos.
Endividado, Matheus passa a trabalhar cada vez mais. Sua alma já não expressa a alegria que os amigos aprenderam a ver. Uma alma cansada repousa num corpo cansado. Nos dias 5 e 6 de maio de 2007, Matheus viaja para Santa Catarina, para ministrar um curso. No dia 7 volta a trabalhar em seu consultório, mas não se sente bem. Resolve ir descansar em seu apartamento em Santos. No dia 8 de maio, pega seu carro para voltar a São Paulo. Na tarde deste dia, seu carro colide com a base de concreto de um dos túneis da rodovia dos Imigrantes. Não havia marca de frenagem. A equipe que atendeu ao acidente suspeita que ele teve um mal súbito. Seu corpo descansou. E a quiropraxia brasileira perdeu um de seus mais proeminentes líderes.
Eu tive a oportunidade de conhecer e trabalhar com o dr. Matheus de Souza. Ele foi meu mestre e devo a seus ensinamentos muito do que sei hoje. Foi ele que me estimulou a aprofundar os conceitos sobre os mecanismos de ação da quiropraxia. Este texto – na verdade um livro não publicado – é o resultado de sua inspiração. Expresso assim, minha profunda gratidão.










