DISCURSO DE FORMATURA - 1986

DISCURSO PROFERIDO NA SOLENIDADE DE FORMATURA DA “TURMA DE FORMANDOS DE 1986” DA FACULDADE DE MEDICINA SOUZA MARQUES

 

Exma. Presidente da FTESM, Prof.ª Stella de Souza Marques Gomes Leal,

Exma. Diretora da Escola de Medicina da FTESM, Prof. Dra. Léa Ferreira Camillo-Coura,

Senhores professores homenageados; senhoras e senhores; caros colegas de turma. . . Boa Noite!

 

Há um ano, fui escolhido por esta turma para ser seu porta-voz nesta noite de festa. A partir de então fui diariamente acossado nos corredores da Santa Casa, no pátio da escola, nas festas e churras­cos, todos me perguntando: E então Junior, o discurso já está pronto?

E a preocupação tinha explicação. Durante todos esses anos esses anos essa turma teve urna participação ativa nas lutas por melhores condições de ensino na faculdade. Brigamos e discutimos com praticamente todas as disciplinas e com a própria direção da escola. E por ter sido presidente do Diretório Acadêmico Oswaldo Cruz - nosso órgão representativo -, meu nome encabeçava, uma lista de alunos que chegaram a ser ameaçados de expulsão. Esse passado preocupava a todos, inclusive meus próprios colegas. Afinal, estava em jogo um dia de alegria, de comemoração, de choro fácil. Um dia em que as pessoas mais queridas estariam presentes.

E a estas pessoas que me procuravam explicava que naquela noite, isto é, nesta noite, o nosso sentimento seria, e é, de missão cumprida, de orgulho por ter chegado ao final de mais uma etapa, de termos vencido mais esta batalha desta guerra que se estenderá até o final de vossas vidas.

Eu tinha a certeza de que iria falar para uma platéia orgulhosa e feliz com os feitos dos seus protegidos. Sabia também que não estaria em cima de um palanque fazendo um discurso político.

Mas, também seria impossível deixar de fazer críticas. Seria no mínimo, perder a oportunidade de falar sobre o que existe dentro de cada um aqui presente. Sim, cada um de nós. É só olhar através desta nuvem de fumaça que propositadamente deixamos baixar sobre nossa memória.

Cada pai aqui sabe o quanto sofreu para que seu filho ou filha chegasse à este dia e estivesse entre estes que agora se formam. 0 quanto foi difícil manusear o orçamento doméstico para pagar uma mensalidade absurda que aumentava semestralmente. E a culpa era da Souza Marques? Não! Pelo menos não sozinha: A escola sempre foi conivente com a política federal para a educação. de restringir o acesso à universidade a quem pode pagar. De privilegiar a escola particular em detrimento do ensino público e gratuito. Foi decepcionante ouvir da própria Fundação, que "pobre não estuda medicina". Assim como foi difícil para nós perdermos pessoas queridas que se transferiram para universidades públicas devido à alta mensalidade, mas... nada se compara ao sentimento de raiva e impotência que sentimos quando nosso grande amigo Antônio "Chacrinha." teve que abandonar o curso de medicina, algo que ele almejou por 7 anos, por que não tinha condições de pagá-lo. Foi triste vê-lo falar numa assembléia em nossa escola, com lágrimas nos olhos. Nunca sairá de nossa memória a resposta que ele deu a alguém que lhe perguntou se a faculdade não dava bolsa de estudo a pessoas carentes. Ele sorriu e disse que só se fosse a pessoas carentes de amor, de afeto, porque a carentes financeiramente ele sabia que não dava.

Esses episódios acontecem em todas as faculdades particulares do Rio e do país, e são o reflexo de uma política de mercantilïzação do ensino. A universidade não é mais um centro produtor de saber e cultura. O ensino superior é hoje um objeto que dá lucro, e dará mais lucros quanto menores forem os custos. Com isso, as escolas ficam num dilema: favorecem nossa formação profissional contratando professores de qualidade, reformando suas dependências, adquirindo os caros materiais de laboratório ou restringem essas melhorias e garantem um balanço positivo ao final de cada mês.

Quanto aos nossos professores, entendemos que estes são a base da nossa formação. Está aqui presente, uma parte destes mestres, que por sua dedicação resguardam a dignidade profissional. Alguns já presentes em outras formaturas... veteranos. Outros estreantes... calouros, assim como nós já fomos um dia. Devemos a vocês, uma grande parte do que sabemos hoje, e, portanto, fizemos questão de homenageá-los. Foi fácil re­conhecer o esforço que vocês faziam em dar aula apesar de estarem com os salários atrasados em 3 ou 4 meses. Alguns desistiram e pediram demissão, enquanto outros deixaram de dar aula enquanto não recebiam, mas todos tinham o nosso apoio. Só não dá para entender o porquê de tomar atitudes isoladas. Porque não formar uma associação de professores e buscar soluções conjuntas? Será que nos dias de hoje, os chefes e patrões ainda não reconheceram o direito de seus empregados se organizarem. Será que exis­te o medo de perder o emprego? Afinal, dar aula numa faculdade de medicina é um titulo importante, ainda mais numa faculdade no centro da cidade, próximo ao metrô. Outras faculdades? Volta Redonda, Campos, Vassouras... muito longe! Pode ser que cada um entenda que a Fundação passe por dificuldades financeiras. Nós mesmos, enquanto alunos, solicitamos por di­versas vezes que a FTESM abrisse aos professores e alunos o seu livro-­caixa e comprovasse essas dificuldades financeiras, e que nós em conjunto buscássemos as soluções para viabilizar a manutenção da escola. Em nosso diploma estará escrito o nome da Souza Marques, e nos orgulhamos disso.

Bate no peito a saudade desse tempo que passamos juntos na escola. Lembramos com um sorriso disfarçado do primeiro dia de aula, o trote meio sem graça, o trenzinho de calouros com um pé descalço passeando pelo metrô, a aula-trote que não enganou ninguém e a verdadeira aula-trote que foi dada pela cadeira de Biofísica. As aulas de Educação Física, que invariavelmente terminavam no bar do clube em meio a violão e cerveja.

A filial da Souza Marques, também conhecida como Amarelinho, cujos mestres, seu Zé e Lúcio, nada ortodoxos, nos mostravam a ação do álcool sobre o sistema nervoso, o sistema renal e o motor; todas as aulas com demonstrações práticas, às quais não faltavam voluntários. Os primeiros dias na Santa Casa, completamente perdidos em meio àqueles corredores e escadarias, sem encontrar a saída ao final de cada aula. Enfim, tanta coisa aconteceu que poderíamos ficar horas contando as histórias que cada um passou nesses seis anos. Tudo isso é gostoso de relembrar, pois adoramos nossa escola. Gostamos da fonte na entrada e dos bancos debaixo das mangueiras. Conhecemos cada sala e cada funcionário. Por isso, ficávamos chateados quando nos diziam que éramos maus alunos. As críticas feitas por nós sempre tiveram a intenção de apontar as falhas, e ao invés de se voltarem contra nós, procurem buscar a verdade que existe em nossas palavras.

Entristece-nos quando não nos compreendem, quando dizem que queremos denegrir o nome da escola. Ao contrário, sempre quisemos ajudá-la a se erguer, a se tornar a grande escola que o saudoso professor Souza Marques ousou sonhar. Esse sentimento segue junto com cada um de nós. Somos mais duzentos a sonhar, assim como somos mais duzentos médicos no mercado de trabalho saturado das grandes cidades. Nos juntamos a outros médicos que se formam este ano nas outras doze faculdades de medicina só no estado do Rio de Janeiro. Quantos de nós temos emprego garantido para o próximo ano? Quantos não podem nem curtir o dia de hoje, preocupados em se preparar para o funil que é a prova para Residência Médica? Quantos estarão subempregados, trabalhando nas trambiclínicas espalhadas pela Baixada Fluminense? Com sinceridade colegas, quem pode dizer, com certeza absoluta que não teme a chegada do próximo ano?

Sim, é essa a realidade que nos amedronta. Não nos preocupa o fato de a partir de agora sermos médicos e responsáveis por nossos atos. Afinal, foram dias e noites respondendo pelos atendimentos em um pronto-socorro inteiro, improvisando um tratamento e ocasionalmente salvando uma vida; o que nos enchia de ânimo para continuar naquela situação, crentes que estávamos prestando um serviço à comunidade. Essa prática médica precoce leva a deturpações e é reflexo da falta de um lo­cal apropriado para a nossa formação profissional. Lutamos todos esses anos para que a escola tivesse o seu próprio Hospital Escola, com nossos próprios professores nos orientando e tirando nossas dúvidas. Sentimos na pele a falta de um local nosso, onde pudéssemos fazer nosso curso de Clínica Cirúrgica sem o risco de vermos a enfermaria fechada no meio do próprio curso. Um local para a Pediatria e para a Clínica Médica sem que ficássemos sobressaltados a cada mudança ou falecimento do chefe da en­fermaria, sob ameaça de perdermos os convênios. E agora, qual será o próximo curso atingido?

Esses acontecimentos inesperados torna mais precário o pró­prio curso de medicina. Nosso currículo não atende as necessidades básicas da população a que vamos atender. Aprendemos a microfisiologia das doenças para podermos prescrever aquele novo medicamento que tem ação no micromecanismo de determinada patologia, ou então, ficamos maravi­lhados com aquele novo exame que dá o diagnóstico preciso imediatamente. Tudo isso completamente fora da nossa realidade econômica, e sem nos darmos conta somos engolidos por essas indústrias que rnanipularn nossos currículos e jogam no mercado de trabalho os médicos adequados às suas conveniências.

Em nenhum momento de nossa formação a questão médica do deficiente físico foi enfocada. Os nossos currículos propositadamente abandonam essa parcela que a 0rganização Mundial de Saúde estima como sen­do de mais de dez porcento de nossa população. Em nossa sociedade só é importante quem produz, e consequentemente associamos a imagem do deficiente à do pedinte, a do doente. Infelizmente a maioria destes não tem acesso ao transporte, às escolas, ao trabalho, ao lazer, e quem diria, a uma simples cadeira de rodas.

Passamos a acreditar que medicina se resume ao que aprendemos na faculdade. Aprendemos a deixar de lado e até a desdenhar da chamada medicina alternativa. Poucos são aqueles que tratam este outro lado da medicina com a devida seriedade. Homeopatia, acupuntura, medicina natural, quiroprática, bioenergética... são palavras que soam mais a curandeirismo, do que a prática médica.

Mas ainda assim, me formo hoje tranqüilo. Sei da aptidão individual e da consciência profissional das pessoas que aqui represento. A nossa capacidade de criticar e de se indignar se mantém viva e atuante. Devemos exercitar essa capacidade a cada dia de plantão, a cada abuso da autoridade médica, a cada erro cometido, por nós ou pelos outros. E esses erros serão tanto menores quanto maior a consciência nossas limitações.

Portanto, parabéns a todos!

Aos professores que vêem seu sonho mais uma vez realizado, o se multiplicar a cada ano e perpetuar em cada um de nós um pouco de si.

À direção da escola e da Fundação, pois mais uma turma se forma pela Souza Marques, e podem ter certeza, não deixaremos a desejar a nenhum médico formado por qualquer outra faculdade.

Ao pessoal da arquibancada, que torceu por cada um de nós durante esses seis anos, e que hoje tem direito a um lugar de honra, com autógrafos, abraços e beijos ao final do jogo.

E por fim, é claro, parabéns a nós. Foi com grande esforço que chegamos até aqui, e ninguém lutou mais por nossa formação do que nós mesmos. Nós fomos as pessoas mais importantes para a nossa formação profissional. É por isso que o nome da nossa turma se chama "TURMA DE FORMANDOS DE 1986". É a nossa homenagem mais importante, merecemos por isso uma grande comemoração.

Como disse uma vez meu compadre, hoje é o dia da grande final. Portanto, agitem suas bandeiras. Hoje, todos aqui são vencedores.

Obrigado.

Carlos Braghini Junior, dezembro de 1986.