A FILOSOFIA DA QUIROPRAXIA

A FILOSOFIA DA QUIROPRAXIA

 

I.                    SUBSTÂNCIA E FORMA

Durante este século, a mudança do paradigma mecanicista para o sistêmico tem ocorrido em diferentes formas e com diferentes velocidades nos vários campos científicos. A tensão básica é a tensão entre as partes e o todo. A ênfase nas partes tem sido chamada de mecanicista ou reducionista; a ênfase no todo, de holística, organísmica ou ecológica. Na ciência do século XX, a perspectiva holística tornou-se conhecida como sistêmica, e a maneira de pensar que ela implica passou a ser conhecida como “pensamento sistêmico”. Os pioneiros dessa abordagem foram os biólogos, que enfatizavam a concepção dos organismos vivos como totalidades integradas.

A tensão entre mecanicismo e holismo tem sido um tema recorrente ao longo de toda a história da biologia. É uma consequência inevitável da antiga dicotomia entre substância (matéria, estrutura, quantidade) e forma (padrão, ordem, qualidade). A forma biológica é mais do que um molde, mais do que uma configuração estática de componentes num todo. Há um fluxo contínuo de matéria através de um organismo vivo, embora sua forma seja mantida. Há desenvolvimento, e há evolução.

Aristóteles, o primeiro biólogo da tradição ocidental, também distinguia entre matéria e forma, porém, ao mesmo tempo, ligava ambas por um processo de desenvolvimento. Ao contrário de Platão, Aristóteles acreditava que a forma não tinha existência separada, mas era imanente à matéria. Nem poderia a matéria existir separadamente da forma.

Aristóteles criou um sistema de lógica formal e um conjunto de concepções unificadoras, que aplicou às principais disciplinas de sua época - biologia, física, metafísica, ética e política. Sua filosofia e sua ciência dominaram o pensamento ocidental ao longo de dois mil anos depois de sua morte, durante os quais sua autoridade tornou-se tão inquestionável quanto a da Igreja.

 

II.                  A FILOSOFIA CARTESIANA

O modelo aristotélico caminhava paralelamente com a imagem de um Deus monárquico que, das alturas governava o mundo, impondo-lhe a lei divina. As leis fundamentais da natureza, objeto da pesquisa científica, eram então encaradas como as leis de Deus, ou seja, invariáveis e eternas, às quais o mundo se achava submetido. Nos séculos XVI e XVII, a visão de mundo medieval, baseada na filosofia aristotélica e na teologia cristã, mudou radicalmente. A noção de um universo vivo e espiritual foi substituída pela noção do mundo como uma máquina, e a máquina do mundo tornou-se a metáfora dominante da era moderna. Essa mudança radical foi realizada pelas novas descobertas em física, astronomia e matemática, conhecidas como Revolução Científica e associada aos nomes de Copérnico, Galileu, Descartes, Bacon e Newton.

Galileu Galilei expulsou a qualidade da ciência, restringindo esta última ao estudo dos fenômenos que podiam ser medidos e quantificados. Esta tem sido uma estratégia muito bem-sucedida ao longo de toda ciência moderna, mas essa obsessão com a quantificação e com a medição também tem cobrado uma pesada taxa. O psiquiatra R.D. Laing afirma: "O programa de Galileu oferece-nos um mundo morto: extingue-se a visão, o som, o sabor, o tato e o olfato, e junto com eles vão-se também as sensibilidades estética e ética, os valores, a qualidade, a alma, a consciência, o espírito. A experiência como tal é expulsa do domínio do discurso científico.”.

René Descartes criou o método do pensamento analítico, que consiste em quebrar fenômenos complexos em pedaços a fim de compreender o comportamento do todo a partir das propriedades das suas partes. Descartes baseou sua concepção da natureza na divisão fundamental de dois domínios independentes e separados - o da mente e o da matéria. O universo material, incluindo os organismos vivos, era uma máquina para Descartes, e poderia, em princípio, ser entendido completamente analisando-o em termos de suas partes menores.

O arcabouço conceitual criado por Galileu e Descartes - o mundo como uma máquina perfeita governada por leis matemáticas exatas - foi completado de maneira triunfal por Isaac Newton, cuja grande síntese, a mecânica newtoniana, foi a realização que coroou a ciência do século XVII. Inspirados pelo modelo de circulação sanguínea proposto por William Harvey, os fisiologistas da época tentaram aplicar o modelo mecanicista para descrever outras funções somáticas, tais como a digestão e o metabolismo. No entanto, essas tentativas foram desanimadores malogros, pois os fenômenos que os fisiologistas tentaram explicar envolviam processos químicos que eram desconhecidos na época e não podiam ser descritos em termos mecânicos. A situação mudou significativamente no século XVIII, quando Antoine Lavoisier, o "pai da química moderna", demonstrou que a respiração é uma forma especial de oxidação e, desse modo, confirmou a relevância dos processos químicos para o funcionamento dos organismos vivos.

À luz da nova ciência da química, os modelos mecânicos simplistas de organismos vivos foram, em grande parte, abandonados, mas essência da ideia cartesiana sobreviveu. Os animais ainda eram máquinas, embora fossem muito mais complicados do que o mecanismo de relojoaria mecânicos. Portanto, o mecanicismo cartesiano foi expresso no dogma segundo o qual as leis da biologia podem, em última análise, ser reduzidas às da física e às da química.

A filosofia de Descartes não se mostrou importante apenas em termos do desenvolvimento da Física clássica; ela exerce, até hoje, uma tremenda influência sobre o modo de pensar ocidental. A famosa frase cartesianaCogito ergo sun (“penso, logo existo”) tem levado o homem ocidental a igualar sua identidade apenas à sua mente, em vez de igualá-la a todo o seu organismo. A mente foi separada do corpo, recebendo a inútil tarefa de controlá-lo, causando assim um conflito aparente entre a vontade consciente e os instintos voluntários.

Posteriormente, cada indivíduo foi dividido num grande número de compartimentos isolados de acordo com as atividades que exerce, seu talento, seus sentimentos, suas crenças, etc., todos estes engajados em conflitos intermináveis, geradores de constante confusão e frustração.

 

III.                O MOVIMENTO ROMÂNTICO

A primeira forte oposição ao paradigma cartesiano mecanicista veio do movimento romântico na arte, na literatura e na filosofia, no final do século XVIII e no século XIX. Os poetas e filósofos românticos alemães retomaram a visão aristotélica concentrando-se na natureza da forma orgânica. Cresce a corrente que acredita que todas as coisas e todos os fatos percebidos pelos sentidos acham-se inter-relacionados, unidos entre si. O mundo começa a ser visto como um sistema de componentes inseparáveis, em permanente interação e movimento, sendo o homem parte integrante desse movimento. Essa visão “ecológica” ou “sistêmica” do mundo começa a permear todas as manifestações do conhecimento humano, como por exemplo, na pintura, aonde este movimento vem a desembocar no Impressionismo. Foi nessa época que Goethe, que já admirava a “ordem móvel” da natureza, escreveu: “Cada criatura é apenas uma gradação padronizada de um grande harmonioso”.

Também, Immanuel Kant, frequentemente considerado o maior filósofo moderno, em sua “Crítica ao Juízo”, discutiu a natureza dos organismos vivos. Ele argumentou que os organismos, ao contrário das máquinas, são totalidades auto-reprodutoras e auto-organizadoras. Kant acreditava que a ciência só podia oferecer explicações mecânicas, mas afirmava que em áreas onde tais explicações eram inadequadas, o conhecimento científico precisava ser suplementado considerando-se a natureza dotada de propósito. De acordo com Kant, numa máquina, as partes apenas existem uma para a outra, no sentido de suportar a outra no âmbito de um todo funcional. Num organismo as partes também existem por meio de cada outra, no sentido de produzirem uma outra. Com esta afirmação, Kant foi o primeiro a utilizar o termo “auto-organização”.

 

IV.                O SÉCULO XIX

Na segunda metade do século XIX, o pêndulo oscilou de volta ao mecanicismo, quando o recém-aperfeiçoado microscópio levou a muitos avanços notáveis em biologia. Foi nessa época que tomou corpo, não só o pensamento evolucionista (Darwin), mas também a formulação da teoria das células, o começo da moderna embriologia, a ascensão da microbiologia e a descoberta da hereditariedade. Essas novas descobertas alicerçaram firmemente a biologia na física e na química, e os cientistas renovaram seus esforços para procurar explicações físico-químicas da vida.

As descobertas de Pasteur, por exemplo, levaram a uma “teoria microbiana das doenças”, na qual as bactérias eram vistas como a única causa da doença. Essa visão reducionista eclipsou uma teoria alternativa, que fora professada alguns anos antes por Claude Bernard, o fundador da moderna medicina experimental. Bernard insistiu na estreita e íntima relação entre um organismo e o seu meio ambiente, e foi o primeiro a assinalar que cada organismo também tem um meio ambiente interno, no qual vivem seus órgão e tecidos. Bernard observou que, num organismo saudável, esse meio ambiente interno permanece essencialmente constante, mesmo quando o meio ambiente externo flutua consideravelmente. Seu conceito de constância do “meio ambiente interno” de um organismo foi posteriormente aprimorado, por Walter Cannon na década de 20, no conceito de homeostase - o mecanismo autorregulador que permite aos organismos manter-se num estado de equilíbrio dinâmico, com suas variáveis flutuando entre limites de tolerância.

 

V.                  O VITALISMO

Os triunfos da biologia do século XIX - teoria das células, embriologia e microbiologia - estabeleceram a concepção mecanicista da vida como um firme dogma entre os biólogos. Não obstante, eles traziam dentro de si as sementes da nova onda de oposição, e escola conhecida como biologia organísmica ou “organicismo”. Embora a biologia celular fizesse enormes progressos na compreensão das estruturas e das funções de muitas subunidades, ela permaneceu, em grande medida, ignorante das atividades coordenadoras que integram essas operações no funcionamento da célula como um todo.

As limitações do modelo reducionista foram evidenciadas de maneira ainda mais dramática pelos problemas do desenvolvimento e da diferenciação. Nos primeiros estágios do desenvolvimento dos organismos superiores, o número de suas células aumenta de um para dois, para quatro, e assim por diante, duplicando a cada passo. Uma vez que a informação genética é idêntica em cada célula, como podem estas se especializarem de diferentes maneiras, tornando-se musculares, sanguíneas, ósseas, nervosas e assim por diante? O problema básico do desenvolvimento, que aparece em muitas variações por toda a biologia, foge claramente diante da concepção mecanicista da vida.

Tanto o vitalismo como o organicismo opõe-se à redução da biologia à física e à química. Ambas as escolas afirmam que, embora as leis da física e da química sejam aplicáveis aos organismos, elas são insuficientes para uma plena compreensão do fenômeno da vida. O comportamento de um organismo vivo como um todo integrado não pode ser entendido somente a partir do estudo de suas partes. Como os teóricos sistêmicos enunciaram várias décadas mais tarde, o todo é mais do que a soma de suas partes.

Os vitalistas e os biólogos organísmicos diferem nitidamente em suas respostas à pergunta: “Em que sentido exatamente o todo é mais que a soma de suas partes?” Os vitalistas afirmam que alguma entidade, força ou campo não físico deve ser acrescentada às leias da física e da química para se entender a vida. Os biólogos organísmicos afirmam que o ingrediente adicional é o entendimento da “organização”, ou das “relações organizadoras”. Uma vez que essas relações organizadoras são padrões de relações imanentes na estrutura física do organismo, nenhuma entidade separada, não física, é necessária para a compreensão da vida. Enquanto que os biólogos organísmicos desafiaram a analogia da máquina cartesiana ao tentar entender a forma biológica em termos de um significado mais amplo de organização, os vitalistas não foram realmente além do paradigma cartesiano. Sua linguagem estava limitada pelas mesmas imagens e metáforas; eles apenas acrescentavam uma entidade não física como o planejador ou diretor dos processos organizadores que desafiam explicações mecanicistas. Desse modo, a divisão cartesiana entre mente e corpo levou tanto ao mecanicismo como ao vitalismo.

O embriologista alemão Hans Driesch iniciou a oposição à biologia mecanicista na virada do século com seus experimentos sobre ovos de ouriço-do-mar. Quando Driesch destruía uma das células de um embrião no estágio inicial de duas células, a célula restante se desenvolvia não em metade de um ouriço-do-mar, mas num organismo completo, porém menor. Driesch compreendeu que seus ovos de ouriço-do-mar tinham feito o que uma máquina nunca poderia fazer: eles regeneraram totalidades a partir de algumas de suas partes.

 

VI.                O PENSAMENTO SISTÊMICO

Durante o início do século XX, os biólogos organísmicos aprimoraram essas ideias. Ross Harrison explorou a concepção de organização, que gradualmente viria a substituir a velha noção de função em fisiologia. O bioquímico Lawrence Henderson foi o primeiro a utilizar o termo “sistema” para denotar tanto organismos vivos como sistemas sociais. Dessa época em diante, um sistema passou a significar um todo integrado cujas propriedades essenciais surgem das relações entre suas partes. De fato, o significado raiz da palavra “sistema” deriva do grego shynhistanai (“colocar junto”). Assim, entender as coisas sistemicamente significa, literalmente, colocá-las dentro de um contexto, estabelecer a natureza de suas relações.

Esses conceitos enunciados pelos biólogos organísmicos durante a primeira metade do século ajudaram a dar à luz a esse novo modo de pensar: o “pensamento sistêmico”. De acordo com a visão sistêmica, as propriedades essenciais de um organismo, ou sistema vivo, são propriedades do todo, que nenhuma das partes possui. Elas surgem das interações e das relações entre as partes. Essas propriedades são destruídas quando o sistema é dissecado, física ou teoricamente, em elementos isolados. Embora possamos discernir partes individuais em qualquer sistema, essas partes não são isoladas, e a natureza do todo é sempre diferente da mera soma de suas partes.

A emergência do pensamento sistêmico representou uma profunda revolução na história do pensamento científico ocidental. A crença segundo a qual em todo sistema complexo o comportamento do todo pode ser entendido inteiramente a partir das propriedades de suas partes é fundamental no paradigma cartesiano.

O grande impacto que adveio com a ciência do século XX foi a percepção de que os sistemas não podem ser entendidos pela análise. As propriedades das partes não são propriedades intrínsecas, mas só podem ser entendidas dentro do contexto do todo mais amplo. Desse modo, a relação entre as partes e o todo foi revertida. Na abordagem sistêmica, as propriedades das partes podem ser entendidas apenas a partir da organização do todo. Em consequência disso, o pensamento sistêmico é “contextual”, o que é o oposto do pensamento analítico. A análise significa isolar alguma coisa a fim de entendê-la; o pensamento sistêmico significa colocá-la no contexto de um todo mais amplo.

A evolução da biologia organísmica – ou do pensamento sistêmico – evoluiu quando os biólogos começaram a estudar comunidades de organismos. A ecologia – palavra proveniente do grego oikos (lar) – é o estudo das relações que interligam todos os membros do Lar Terra.

Sabemos hoje que, em sua maior parte, os organismos não são apenas membros de comunidades ecológicas, mas são, eles mesmos, complexos ecossistemas contendo uma multidão de organismos menores, dotados de uma considerável autonomia, e que, não obstante, estão harmoniosamente integrados no funcionamento do todo. Essa ideia de “teia da vida” tem sido utilizada por poetas, filósofos e místicos há muitas eras para transmitir seu sentido de entrelaçamento e de interdependência de todos os fenômenos. E os modernos pensadores sistêmicos já utilizam modelos de rede em todos os níveis dos sistemas, considerando os organismos como redes de organismos individuais. De fato, a concepção de rede é a chave para os avanços que estão ocorrendo na compreensão científica não apenas dos ecossistemas, mas também da própria natureza da vida.

 

VII.              A TEORIA MECANICISTA E A SAÚDE

Um importante aspecto da concepção mecanicista dos organismos vivos, com seu resultante enfoque técnico da saúde, consiste na crença de que a cura requer alguma intervenção externa, como a do médico, a qual tanto pode ser física – através de cirurgia ou radiação – quanto química – através de medicamentos. A atual terapia baseia-se nesse princípio de intervenção médica, confiando em forças externas para a cura ou, pelo menos, para o alívio do sofrimento e do desconforto, sem levar em consideração o potencial curativo do próprio paciente. Essa atitude deriva diretamente da visão cartesiana do corpo como uma máquina que requer alguém para consertá-la quando sofre uma avaria. Assim, a intervenção médica é efetuada com o objetivo de corrigir um mecanismo biológico específico numa determinada parte do corpo, com partes diferentes tratadas por especialistas diferentes.

Associar uma certa doença a uma parte definida do corpo é, evidentemente, muito útil em determinados casos. Mas a moderna medicina científica tem enfatizado excessivamente a abordagem reducionista e desenvolveu suas disciplinas especializadas a um ponto tal que os médicos, com frequência, já não são capazes de ver a enfermidade como uma perturbação do organismo todo, nem tratá-la como tal. A tendência, nesses casos, é tratar um determinado órgão ou tecido, e isso é geralmente feito sem levar em conta o resto do corpo e muito menos considerar os aspectos psicológicos e sociais da enfermidade do paciente.

Embora a intervenção médica fragmentária possa ser bem sucedida no alívio da dor e do sofrimento, isso nem sempre é suficiente, por si só, para justificá-la. De um ponto de vista mais amplo, nem tudo que alivia temporariamente o sofrimento é necessariamente bom. Se a intervenção for realizada sem levar em conta outros aspectos da enfermidade, o resultado em longo prazo será quase sempre prejudicial à saúde do paciente.

Ao contrário das culturas tradicionais, onde as terapias baseiam-se num profundo respeito pela autocura, na noção de que o paciente como indivíduo responsável, pode iniciar ele próprio o processo que o leve a ficar bem. Tal atitude é contrária ao enfoque biomédico, que delega toda a autoridade e responsabilidade ao médico.

De acordo com o modelo biomédico, somente o médico sabe o que é importante para a saúde do indivíduo, e só ele pode fazer qualquer coisa a respeito disso, porque todo o conhecimento acerca da saúde é racional, científico, baseado na observação objetiva de dados clínicos. Assim, os testes de laboratório e a medição de parâmetros físicos na sala de exames são geralmente considerados mais importantes para o diagnóstico do que a avaliação do estado emocional, da história familiar ou da situação social do paciente.

A autoridade do médico e sua responsabilidade pela saúde do paciente fazem-no assumir um papel paternal. Ele pode ser um pai benévolo ou um pai ditatorial, mas sua posição é claramente superior ao paciente.

No sistema atual de assistência à saúde, os médicos desempenham um papel ímpar e decisivo nas equipes que se encarregam das tarefas de assistência aos pacientes. È o médico quem encaminha os pacientes para o hospital e os manda de volta para casa, é ele quem solicita as análises e radiografias, quem recomenda uma cirurgia e receita medicamentos. O pessoal de enfermagem, os fisioterapeutas, os nutricionistas, embora qualificados para desempenhar seu papel, são considerados meros auxiliares dos médicos e raramente podem usar todo o seu potencial.

Fascinada pela mística que cerca a profissão médica, nossa sociedade conferiu aos médicos o direito exclusivo de determinarem o que constitui a doença, quem está doente e quem não está, e os procedimentos com relação ao indivíduo enfermo. Muitos outros profissionais, como os quiropraxistas, fitoterapeutas, osteopatas, cujas técnicas terapêuticas são baseadas em modelos conceituais diferentes, mas igualmente coerentes, foram legalmente excluídos do ramo principal da assistência à saúde.

 

VIII.            A MEDICINA CHINESA

Os principais temas da medicina hipocrática – a saúde como um estado de equilíbrio, a importância de influências ambientais, a interdependência da mente e do corpo e o poder curativo inerente à natureza – foram desenvolvidos na China Antiga num contexto cultural muito diferente. A medicina chinesa clássica tinha suas raízes em tradições xamanísticas e foi modelada pelo taoismo e pelo confucionismo, as duas principais escolas filosóficas do período clássico.

Ao contrário dos pensadores gregos, os chineses não estavam muito interessados em relações causais, mas nos modelos sincrônicos de coisa e eventos. Essa atitude esta chamada de “pensamento correlativo” por Joseph Needham:

“As coisas comportaram-se de certas maneiras não necessariamente por causa de ações ou impulsões prévias de outras coisas, mas porque sua posição no universo cíclico em constante movimento era tal que elas foram dotadas de naturezas intrínsecas que tornaram esse seu comportamento inevitável. Se não se comportassem dessas maneiras particulares, perderiam suas posições em relação ao todo (o que as fez serem o que eram) e passariam a serem outras coisas que não elas próprias”.

Esse modo correlativo e dinâmico de pensamento é básico para o sistema conceitual da medicina chinesa. O indivíduo saudável e a sociedade saudável são partes integrantes de uma grande ordem padronizada, e a doença é desarmonia no nível individual ou social.

A ideia chinesa do corpo sempre foi predominante funcional e preocupada mais com as inter-relações de suas partes do que com a exatidão anatômica. Assim, o conceito chinês de um órgão físico refere-se a todo um sistema funcional, considerado em sua totalidade. Essa noção de corpo como um sistema indivisível de componentes inter-relacionados está, obviamente, muito mais próxima da moderna abordagem sistêmica do que do modelo cartesiano clássico.

Na concepção chinesa de saúde, o equilíbrio é um conceito fundamental. A doença não é considerada um agente intruso, mas o resultado de um conjunto de causas que culminam em desarmonia e desequilíbrio. Entretanto, a natureza de todas as coisas, incluindo o organismo humano, é tal que existe uma tendência natural para se retornar a um estado dinâmico de equilíbrio. As flutuações entre equilíbrio e desequilíbrio são vistas como um processo natural que ocorre ao longo de todo o ciclo vital. Tanto a saúde quanto a doença são consideradas naturais e parte de uma sequencia contínua. São aspectos do mesmo processo, em que o organismo individual muda continuamente em relação ao meio ambiente inconstante.

Como a doença será, em dados momentos, inevitável ao processo vital. A saúde perfeita não é o objetivo essencial do paciente ou do médico. A finalidade da medicina chinesa é, antes, realizar a melhor adaptação possível do indivíduo ao meio ambiente como um todo. Para alcançar esse objetivo, o paciente desempenha um papel importante e ativo. Na concepção chinesa, o indivíduo é responsável pela manutenção de sua própria saúde; o médico participa desse processo, mas o paciente é o principal responsável.

È fácil perceber que um sistema de medicina que considere o equilíbrio e a harmonia com o meio ambiente a base da saúde enfatiza necessariamente as medidas preventivas. Com efeito, o papel principal dos médicos chineses sempre foi o de evitar o desequilíbrio de seus pacientes. O mais importante entre os primeiros textos clássicos médicos, o Nei ching explica:

“Administrar remédios para doenças que já se desenvolveram é comparável ao comportamento daquelas pessoas que começam a cavar um poço muito depois de terem ficado com sede. Não seria essa providência excessivamente tardia?”

Esses conceitos e atitudes demonstram que o papel do médico é bem diferente daquele desempenhado no Ocidente.

A avaliação apropriada do “conhecimento subjetivo” é algo que certamente poderíamos aprender com o Oriente. Desde Galileu, Descartes e Newton, nossa cultura tem estado tão obcecada com o conhecimento racional, a objetividade e a quantificação, que nos mostramos muito inseguros ao lidar com valores e com a experiência humana. Em medicina, a intuição e o conhecimento subjetivo são usados por todo bom médico, mas isso não é reconhecido na literatura profissional, nem é ensinado nas escolas médicas.

 

IX.                 INTELIGÊNCIA INATA

Como todo sistema que utiliza técnicas naturais, a quiropraxia é baseada num princípio fundamental; de que o organismo humano possui a habilidade natural de ajustar-se, regular-se e curar-se. Um simples corte será imediatamente reconhecido pela “inteligência” natural do organismo, a qual determinará que sejam iniciados todos os processos necessários para recuperar o dano causado. Essa mesma inteligência natural nos faz respirar, restabelece um osso fraturado, renova a pele quando ela se queima, nos diz quando temos sede, fome ou sono. Dirige, regula, governa e controla todas as funções do corpo inteiro, o tempo todo. A inteligência inata sabe quando algo está errado, onde, quando, o que necessita ser refeito, substituído, e como fazê-lo. Não há dúvida de que, em todas as questões relacionadas à vida, existe um “fluxo”, uma “força invisível”, como um grande Princípio Universal do qual o Homem é apenas uma parte.

Tal fenômeno foi observado desde o princípio, mas tem desafiado a avaliação “científica”. Ele tem sido variadamente descrito como a “Força da Vida” por Claude Bernard e como “Ímpeto Vital” por Henri Bergson, mas qualquer que seja o nome, o livre e ininterrupto “fluxo” da Força Vital pode ser considerado como um requisito essencial para a saúde de um organismo. Por outro lado, qualquer interrupção de tal fluxo pode ser considerada como uma base para a falta de saúde.

A lei do vitalismo, ou da Inteligência Inata, é introduzida nos primeiros ensinamentos da escola quiroprática e da escola osteopática. Ambas as escolas sempre estiveram na vanguarda em oferecer sistemas alternativos de tratamento baseados em leis fundamentais da Natureza, e é esse o alicerce das observações filosóficas enunciadas nos anos de desenvolvimento dessas ciências.

O próprio Hipócrates, já tinha publicado um edital que dizia:“colocando muita confiança na natureza médica visível, a medicina deve funcionar em torno da remoção dos impedimentos para a cura, sendo a sua intervenção racionalmente nas áreas benignas de descanso, nutrição, exercício e massagem”.

Também o importante anatomista Gray, escreveu num dos principais tratados de Anatomia: “A finalidade do sistema nervoso é controlar e coordenar a função de todos os tecidos, órgãos e sistemas do corpo”. A quiropraxia mantém esse conceito de que a inteligência inata controla todas as funções do organismo através do sistema nervoso. Se algum fator causa distúrbios na condução do impulso nervoso, então esse controle não será efetivo, precipitando o aparecimento de um estado mórbido, quer seja num órgão, tecido ou função.

Para que você entenda a importância disso, é só imaginar cerca de 70 trilhões de células trabalhando juntas em perfeita harmonia. E, não existe uma só dessas células que não seja coordenada, direta ou indiretamente, pelo sistema nervoso! Um bloqueio da comunicação entre o sistema nervoso e essas células pode interferir em até 10.000 mensagens por segundo! Com isso podem sofrer dezenas de órgãos internos (coração, glândulas, rins), centenas de músculos e uma infinidade de células. Podemos dizer, portanto, que o objetivo principal da quiropraxia, é eliminar essas eventuais interferências e permitir a livre transmissão desse impulso nervoso, para que a inteligência inata possa se manifestar.

 

X.                   AS ARTES DE CURA

Para entendermos o que se passa com as ciências médicas, devemos lembrar que nessa época, as artes de cura não eram ainda regulamentadas, não havendo assim, nenhuma definição legal sobre suas várias ramificações. O sistema de saúde estava baseado na atuação de médicos, cirurgiões, farmacêuticos, ortopedistas, e por vários outros grupos alternativos.

As pressões das classes dominantes sobre os governos da época pretendiam estabelecer algum tipo de controle a essa situação, não sem antes produzir muita revolta e grandes discussões entre as várias facções. Enquanto essas discussões se estabeleciam, um grupo se apressou em estabelecer uma coligação, que de certa maneira perdura até os dias atuais: iniciou-se então, o triângulo médico-cirurgião-farmacêutico. Notavelmente, na época em que esta coligação ocorreu, alguns especialistas, como os ortopedistas, foram inicialmente deixados de lado, assim como os grupos alternativos não médicos. Sua atuação dependia exclusivamente do prestígio pessoal e dos resultados práticos que obtinham. Também, é interessante lembrar que na época em questão, havia poucas pesquisas válidas sobre a aplicação de qualquer uma das técnicas terapêuticas.

A insatisfação com essa coligação, fez com que alguns médicos e terapeutas, buscassem alternativas onde pudessem aplicar seus conhecimentos e suas habilidades. Podemos dizer, então, que a quiropraxia, nasceu da insatisfação com a aplicação da medicina alopática tradicional. Também chama a atenção o fato de que essa abordagem alopática está cada vez mais fundamentada na contribuição dos farmacêuticos e químicos, do que dos médicos em geral.

 

XI.                 A FILOSOFIA DA QUIROPRAXIA

Foi Victor Strang que nos lembrou que a filosofia de uma dada ciência utiliza uma hierarquia entre seus enunciados. Primeiramente, no nível mais baixo da informação científica, temos a conjectura ou premissa.

Em segundo lugar, temos o nível que é universalmente conhecido como a “ferramenta de trabalho” da ciência, a hipótese. Por definição, é uma afirmação que é feita presumindo guiar uma conclusão.

Em terceiro lugar, temos o nível que é conhecido como teoria da ciência. Nele se encaixa aquele conhecimento em que, a investigação e os dados de pesquisa tendem a comprová-lo, mas sem estar realmente comprovado.

Por último, nos referimos às leis ou princípios da ciência, os quais por definição se referem aos fatos comprovados da ciência. É um conceito que foi alçado a uma posição de conhecimento comprovado.

Assim, a conjectura é a boca maior de um funil, que prossegue para a hipótese, depois para a categoria de teoria, e finalmente para a mais alta camada do conhecimento científico, as leis ou princípios da ciência. Esta abordagem deve ser entendida para que possamos determinar a filosofia da quiropraxia.

Deve-se ter em mente que todas as artes de cura são categorizadas como ciências clínicas. Isto define e contrasta-as das outras divisões, particularmente das ciências exatas e empíricas. Naturalmente, a ciência clínica existe quando é feita uma avaliação dos resultados obtidos quando esta ciência é posta em ação. Nossa avaliação da filosofia quiroprática, é confirmada utilizando a hierarquia mencionada anteriormente.

Palmer observou uma perda da integridade na estrutura, e raciocinou, devido à sua visão global (sistêmica) que, essa perda de integridade da estrutura, muito possivelmente alteraria o estado geral do corpo. Assim, a quiropraxia foi originalmente baseada na premissa formada por Daniel David Palmer, de que existe uma inter-relação entre a estrutura musculoesquelética e o sistema nervoso, e que a perda da integridade do primeiro afeta a integridade funcional do segundo.

Em seguida, Palmer se referiu à hipótese de que existe um relacionamento entre a integridade funcional do sistema nervoso e a manutenção da saúde, ou seja, na manutenção da homeostase.

Da mesma maneira, dizemos que a quiropraxia é uma ciência clínica fundamentada na teoria de que existe um sistema no organismo, denominado Sistema Nervoso, cuja função é controlar, coordenar todos os outros órgãos e estruturas, e integrar o organismo com o seu ambiente interno e externo.

Finalmente, a quiropraxia é uma ciência clínica baseada em uma lei da biologia de que existe, como uma propriedade de qualquer organismo vivo, uma habilidade de permanecer estável, ou de retornar à estabilidade. Esta propriedade é conhecida como Lei da Homeostase.

Palmer, em seus próprios escritos, disse que colocou em posição a vértebra que ele determinou estar fora de posição, conseguindo o que ele afirmou ser o resultado esperado e desejado. Ele, então, partiu da premissa de que, a perda da integridade vertebral está relacionada com a perda da integridade funcional do sistema nervoso; e que, se a integridade vertebral pode ser restabelecida, pode-se criar a expectativa de que a integridade do sistema nervoso também se restabeleceria. Então, se consideramos a hipótese de existir uma associação entre saúde do sistema nervoso e a saúde do corpo, a teoria de que o sistema nervoso controla e coordena todos os outros órgãos e estruturas pode ser um fato, e, por último, a lei que presume haver uma habilidade do ser humano em recuperar-se pode ser finalmente expressa.

Na quiropraxia, o organismo é analisado como uma união inseparável de vida e matéria, mas não de uma maneira estática, e sim dinâmica. Parece natural, portanto, que após o tratamento quiroprático, o organismo funcione com uma organização biológica perfeitamente balanceada em que, qualquer necessidade é prontamente entendida e atendida, da forma mais perfeitamente possível.

REFERÊNCIAS:

1.       “O Segredo dos Médicos Antigos” – Jürguen Thorwald – Editora Melhoramentos, 1990.

2.       “Chiropractic – An Illustrated History” – Dennis Peterson & Glenda Wiese – Mosby Year Book, Inc., 1995

3.       “A Assustadora História da Medicina” – Richard Gordon – Ediouro, 1996.

4.       “Iniciação à Quiropatia – Filosofia, Ciência e Arte de Curar com as Mãos” – M. Matheus de Souza – Ibraqui.

5.       “A Teia da Vida” – Fritjof Capra – Cultrix – Amana-Key, 1997.

6.       “O Ponto de Mutação” – Fritjof Capra – Cultrix, 1980.

7.       “O Tao da Física” - Fritjof Capra – Cultrix, 1980.

8.       “A Medicina da Pessoa” – Danilo Perestrello – Livraria Atheneu, 1982.

9.       “Man” – Manly P. Hall – The Philosophical Research Society